Nem uma a menos

Nota da autora: Esse texto pode conter gatilhos para pessoas que passaram por violências. Plágio é crime. Texto de Tainara Paulon.

Estou cansada. Cansada de morrer todos os dias. Aos poucos e despedaçada, em sarjetas praias moradas.

Estou cansada. Cansada de saber que meu corpo e minha alma são vistos como partes a serem utilizadas mutiladas apedrejadas.

Estou cansada. Cansada de lutar diariamente para que meu grito não morra num eco vazio infinito e que nossas vozes sejam escutadas.

Estou cansada. Cansada de buscar múltiplas maneiras para que outros compreendam e respeitem nossos desejos e vidas.

Estou cansada. Cansada de ver como mais uma de nós é estuprada decepada assassinada afogada sufocada até o último suspiro de vida como se não fosse nada.

Como se fosse apenas mais uma.

Mais uma que tem sua vida arrebatada por aqueles que não entendem o significado de igualdade equidade liberdade.

Mais uma que some no meio da multidão, para jamais ser encontrada velada enterrada.

Mais uma que nos arrebatam das mãos, como uma carne encontrada no lixão.

Mas não somos mais uma. Nunca fomos. Sempre fomos parte de um todo.

Cada uma de nós, e nossos corpos, nossas almas, nossas raízes centenárias e todo o pó de estrelas que corre em nossas veias é o mesmo. É único.

Somos fruto da mesma sociedade doente que separa adoece abandona. Da mesma sociedade que acoberta machuca mata. Da mesma sociedade que oprime negligencia fecha os olhos.

Somos fruto de dores antigas, medos em cada esquina e alívio apenas ao saber que sobrevivemos mais um dia.

Somos diversas, somos múltiplas, somos únicas, mas somos conjunto do todo que continua nos aniquilando em cada um dos infinitos cantos da Terra.

Mas somos mais. Somos terra água fogo ar. Somos vento e tempestade, e no meu sangue eu carrego a luta daquelas que já se foram, mas que nunca realmente partiram.

Daquelas que se uniram.

Em minha voz carrego a voz das almas retumbadas que gritam alardem esperam por futuros melhores.

Pareço ser uma, mas sou todas aquelas que, como eu, lutam ferozmente por dias melhores.

Não me calarei, não nos calarão.

Nem uma a menos.

A escolha pelo não uso de vírgulas é um ato político poético polêmico, e vou me arriscar.
Hoje, 25 de novembro, é o dia internacional do combate contra a violência à mulher.

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5 pensamentos sobre “Nem uma a menos

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