Conexão com Personagens

Há algum tempo eu me desliguei dos meus personagens originais. A correria da vida acadêmica tem me roubado tanto tempo e energia que escrever ficou em segundo plano. Eu entendo e respeito esse momento, é necessário focar em uma ou outra tarefa por vez e a universidade tem demandado muito de mim.

Faz um tempo já que eu me sentia longe de ser uma escritora, esses últimos meses foram meses escuros para minha escrita, fiquei meses sem atualizar sequer a minha fanfic (Love Shuffle – Naruto Fandom). Mas algumas coisas começaram a reacender essa chama antiga e adorada que faz minha vida brilhar e aquecer de um jeito muito específico.

Todo esse tumulto político, as mudanças incríveis num piscar de olhos, os retrocessos alcançados da noite para o dia. Tudo isso mexeu comigo, com esse lado meu irritadiço, frustrado e indignado. A indignação sempre foi um combustível para mim, uma necessidade maior que eu de escrever, de depositar esses sentimentos no papel.

Essa raiva, essa sensação de não ter para onde fugir ou como remediar atos que saem completamente do meu controle, me fizeram conectar com um personagem que há algum tempo eu não conseguia sentir dentro de mim.

Bem, antes de falar dele, vale ressaltar que alguns vídeos de dois autores brasileiros em específico têm me motivado bastante a aninhar no meu peito a minha raíz escritora, que é a real raíz da Tainara. Mais do que ativista dos direitos humanos, mais do que pesquisadora de tráfico humano, mais do que futura psicóloga, eu sou escritora. Minha aura, meu coração, minha mente, minha alma e minha vida se iluminam com a escrita.

Então assistir as dicas e experiências da Samanta Holtz em seu canal do Youtube e de André Vianco pelas miniaulas do Vivendo de Inventar me ajudou a conectar cada dia mais com essa necessidade latente de voltar a escrever, de mexer nas minhas estórias originais arquivadas, guardadas numa pastinha escondida no meu notebook.

Foi com esse empurrãozinho que o Marcelo voltou. Talvez eu não deva falar dele ainda, talvez seja tudo muito cedo, então vou apenas contar como o Marcelo e todos os outros apareceram.

Tudo começou em 2011. Mais precisamente em julho de 2011, enquanto eu morava em Glasgow (Escócia) para fazer intercâmbio. Eu tinha essa ideia bacana para uma nova fanfic de Naruto, e eu gostava dela por demais. Eu adorava ela, eu estava vivendo uma história de amor com aquela ideia. Mas a ideia era boa demais para ser apenas uma fanfic.

Lembro de ter saído do The Lighthouse, uma construção do Charles Mackintosh – que atualmente é o Centro de Design e Arquitetura da Escócia – eu tinha ido fazer uma visita com outros estudantes do curso de inglês, estavamos todos contentes pois o topo do edifício é um mirante da cidade e a arquitetura de Glasgow é simplesmente incrível. E meus colegas tinham outra atividade para fazer, então nos separamos quando entramos na Buchanan St.

Veja bem, a Buchanan St. é praticamente o centro de Glasgow, há imensas lojas, comércios, cafeterias etc. É fechada para carros então você pode andar tranquilamente pela principal rua da cidade sem se importar.

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Vista de Glasgow, topo da The Lighthouse

Bem, naquele momento, quando meus amigos foram para outro caminho, eu me deparei ali sozinha, no meio daquele mar de pessoas fazendo suas compras ou simplesmente indo para o trabalho ou para casa. Eram 16h mais ou menos e eu não tinha mais nada para fazer naquela tarde.

Foi quando a ideia me atingiu. Eu queria que aquele enredo incrível virasse um livro. Era aquilo que eu ia fazer. Eu não queria gastar aquele grupo genial de ideias em uma fanfic.

Uma emoção estranha nasceu no meu peito e expandiu. Foi um momento muito mágico para mim, aquela certeza, aquela confirmação. Foi quando Marcelo apareceu. Era como se ele estivesse ali, no meio de todas aquelas pessoas que transitavam a rua. E eu o vi, dentro de mim e fora de mim, como um efeito que transcende.

E ele me viu de volta.

Desde então ele, principalmente, mas todos os outros que compõe essa estória também, andam comigo para onde quer que eu vá. Eles são uma espécie estranha de companhia fantasma, que me tocam diariamente em coisas mínimas.

Uma cena, uma música, uma frase, um gesto, um jeito específico de andar, falar ou mexer nos cabelos e eu vejo cada um deles. Mas principalmente Marcelo.

Existe uma espécie de fixação quando falo dele, graças à deus eu tenho uma irmã de alma que compartilha dessa preferência bastante clara que tenho por ele em comparação a outros personagens.

E, assim, eu vou cuidando dele e de todas as tentativas que ele teve de fugir de mim. Suas ideias de me abandonar, de se suicidar, de ir embora e nunca mais olhar para trás, de sumir do mapa e de seus fantasmas. Mas a cada dia eu construo uma nova ponte até ele, então nós nos sentamos numa cafeteria num canto da minha mente e ele desabafa, pouco a pouco, cada mínimo detalhe que preciso ter dele.

Marcelo cresceu comigo ao longo dos últimos 5 anos, e amadureceu dentro do meu coração.

Eu gosto de pensar nos meus personagens como pessoas vivas que habitam dentro de mim. E vamos juntos tecendo o tear de suas vidas e suas histórias. Como se cada fio que vamos tecendo juntos fosse uma nova veia de seu corpo, uma materialização, um diálogo mental eterno que dura anos até que cada cena de suas vidas vai brotando de dentro de mim, como sementes, como uma gestação prolongada.

Essa minha conexão com os personagens é o que faz com que eles sejam cada vez mais vívidos e reais, o mais realistas que consigo chegar. É quase palpável… O ambiente, as vozes e os cheiros. É como se fossem companhias em forma de sussurros e inspirações.

Acredito que as conexões são extremamente necessárias, para identificá-los, para tirá-los do mundo das ideias e colocá-los no papel, na folha em branco.

Penso em cada um deles como um presente, um amor incondicional como o que normalmente temos com nossos filhos, nossos rebentos.

Gosto de imaginar que há um fio vermelho do destino que nos une, como o conto japonês. Akai Ito. Ele estica, se enrosca e puxa, mas jamais rompe. Como se estivéssemos destinados a nos conhecer desde nosso nascimento. E todos esses personagens que me acompanham diariamente nasceram junto comigo, ou talvez até antes de mim.

Costumamos dizer na psicanálise que o inconsciente das pessoas começa a se desenvolver desde antes de nascerem. Desde quando seus pais começam a pensar em um dia engendrar um filho, e aos poucos se compõe, mesmo antes do momento da concepção biológica.

São momentos mágicos de comunhão, concepção e nascimento.

Eu espero que em breve eu possa apresentar o Marcelo a vocês, sua vida e seus amigos. Que eu possa compartilhar desse amor com alguns aventureiros de histórias. Tomara que esse sonho algum dia se concretize, pois esses personagens merecem vir à tona na vida de outras pessoas. ❤

Quis compartilhar hoje um pouco sobre essa minha maneira de criar e tecer meus personagens originais, já que eu não tenho falado muito da minha escrita. Essa reflexão me veio hoje, enquanto eu pensava no Marcelo.

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E vocês, como criam e gestam seus personagens? Seria lindo saber como esse fenômeno acontece com outros escritores.

As melhores inspirações sempre, Tai.

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3 pensamentos sobre “Conexão com Personagens

  1. Querida Tainara,

    Que lindo saber que meus vídeos estão te fazendo tão bem e ajudando a resgatar seu “lado escritora” (que no fundo nunca está mais perto ou mais longe, apenas soterrado por outras providências, assuntos e sentimentos hahahaha)

    Também acessei o link das aulas do André Vianco. Que legal!!! Não conhecia!

    Beijos no coração e traga logo Marcelo à tona para a gente conhecer!!!!

    Com amor,
    Sam

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  2. Nada vai apagar a escritora dentro de ti, Tai. Me emocionei em te ver falando dos teus personagens. Passei uns cinco anos sem escrever uma linha e nesse tempo me senti como se tivesse me perdido de mim mesma. Nos últimos dias alguma coisa voltou pro lugar e finalmente voltei a escrever. Fui tomada por uma sensação incrível de voltar pra casa e perceber que escrever foi e sempre vai ser parte de mim. Tenho saudades de ti, de verdade. Às vezes me pego querendo reviver aqueles lindos sonhadores de fanfics. Espero poder conhecer teus personagens em breve, o mundo merece as tuas palavras. Sabes que aqui tu tens uma super fã. Beijos

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    • ain pah, vc é um amor. eu tbm sinto saudades daquela época em que nós escrevíamos loucamente e conversávamos sobre escrita e plots e personagens… era incrível! muitas vezes penso que queria voltar para 2006 e 2007 e me aninhar nessa sensação de lar e proteção e identidade. suas palavras refletem muito do que eu sinto, estou louca para sentar e ler as fics que vc tem postado esses dias, mas to aqui na correria absurda de fim de semestre, assim que der vou ler e comentar e enviar mil abraços virtuais hehehe 😛
      muito obrigada por tudo!!! linda! sou sua fã tbm e fico muito feliz de saber que vc tá voltando a escreveeeer *–* te amo linda!

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