Quem fez tuas roupas?

Hoje vamos falar de um tema um pouco diferente.

Essa época do ano é quando as lojas fazem aquelas ultra liquidações e esvaziam as prateleiras para abrigar novas peças de roupa da nova temporada. Eu costumava ser uma dessas pessoas que ia ávida comprar tudo o que fosse legal e barato.

Mas não sou mais.

Há alguns anos evito algumas lojas e marcas famosas depois dos escândalos sobre mão de obra escrava e inclusive tráfico de pessoas para exploração laboral no mercado da moda. Por exemplo Zara, Primark, M. Officer, Renner, Marisa… que são famosas pelas suas roupas e por escândalos de mão de obra análoga à escrava.

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(Trabalho análogo ao escravo é aquele que não é trabalho escravo pois se respalda em brechas trabalhistas, mas o trabalho em si é escravo e fere direitos humanos e trabalhistas dos trabalhadores).

Eis que no dia 28 de janeiro de 2016 eu tive a grande honra de participar da inauguração de mais uma proposta da ONG 27 Million Brasil, que trabalha no combate e conscientização do Tráfico de Pessoas e que são meus parceiros nos projetos aqui em Foz, e da ONG Fashion Revolution.

Do dia 28/1-04/2 eles estiveram com uma lojinha lá na FIESP, na Av. Paulista, em São Paulo. A instalação estava incrível, muitas pessoas entrando e saindo. Mas no que consistia tudo isso e porque eu comecei a falar desse evento?

Acontece que por fora, era uma loja com preços IMPERDÍVEIS! Manequins lindos, preços a partir de 9,90! Uma pechincha! Mas quando você entrava, se deparava com um ambiente escuro, com o barulho agonizante de uma máquina de costurar super barulhenta e dois vídeos contando como as roupas são produzidas no mercado da moda atual, e onde essas roupas todas vão parar depois que nos desfazemos delas.

Um choque! Um baque, um belo tapa na cara. Vi muita gente entrar achando que era loja e sair fazendo cara feia.

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Use roupas que façam a diferença!sair em seguida de cara feia, reclamando pela situação.

 

Depois desse cômodo escuro e incômodo, onde entrávamos em contato com essa realidade dura, problemática, análoga à escravidão, passávamos para um cômodo claro com frases fortes de efeito em quadrantes coloridos.

O conceito era fácil de compreender: depois de descobrir todo esse terror e o sangue impregnado em nossas roupas, o que podemos fazer?

As mudanças estão nas nossas mãos, basta sermos fortes para decidir mudar.

Mas mudanças não são fáceis, acredite.

Depois desses dias onde as hashtags #QuemFezTuasRoupas e #WhoMadeYourClothes bombar no Face e Twitter, fica um sabor amargo ao entrar em algumas lojas e ver aqueles preços imperdíveis piscando para você.

Nessas férias, enquanto estava na Espanha, foi época das famosas Rebajas (Liquidações), lá você realmente vê as pessoas fazendo aqueles típicos arrastões nas lojas e só se preocuparão em ver se fica bom no corpo quando já estiverem em casa com 15 sacolas cheias de roupas.

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mãe linda sempre na movida!

Bem, esse ano eu não aproveitei muito as Rebajas, eu já estava me sentindo muito mal quanto a tudo o que estava lendo nas redes sociais e decidi comprar apenas o que realmente precisava. Coisas que eu ia usar não por um capricho besta ou por todo mundo estar usando, mas porque me fazia falta aquela prenda de roupa.

 

Eis que descobri que o tal dos arrastões se chama Haul, do verbo em inglês Hauling que é arrastamento. E fiquei chocada com a quantidade de vídeos online de garotas de todas as idades falando quão maravilhosas estavam sendo as liquidações.

Eu quis chorar.

Eu consigo entender, consigo mesmo, eu era dessas que via uma peça boa a preço barato e realmente comprava. Porque seria um pecado não comprar. Mas descobri que isso é mentira, e que o pecado é essa roupa estar assim tão barata porque quem costurou está trabalhando em condições absurdamente precárias e recebendo ainda menos para que nósIMG_20160128_190604_AO_HDR possamos achar uma pechincha e para que essa marca triunfe no mercado às custas do nosso dinheiro e da escravização de mão de obra vulnerável e barata.

O que me faz querer chorar é principalmente o fato de que muitas dessas meninas e mulheres nunca vão parar para pensar nisso, ou jamais vão abrir mão dessas compras baratíssimas. Pois elas também são escravas de um sistema do mercado da moda que faz, cada vez mais, com que pensemos que se não nos encaixamos nesse padrão de roupas e acessórios, nós somos uns perdedores. Completos losers.

Bem, então eu vou continuar sendo uma loser.

Daí, veja só, eu vi um documentário. Um documentário que o mundo inteiro precisa ver! Chamado The True Cost – O verdadeiro preço/custo. Que fala exatamente sobre isso: o mercado da moda, o sistema econômico, o trabalho escravo, a verdade e manipulação das grandes marcas…

Trailer do Documentário

Enfim, você termina de ver o documentário tremendo. Pois essa é a única reação possível: tremer de medo.

A poluição gerada por essa produção exacerbada de roupas, a contaminação da água, rios, terra. Os pesticidas e sementes geneticamente modificadas usadas pelos algodoeiros. As montanhas de roupas descartadas que não serão decompostas. Os trabalhadores em situações análogas à escravidão. O impacto ecológico…

Tudo! É chocante ver como esse consumo, esse excesso absurdo de consumo, a manipulação midiática e esse sistema econômico estão acabando conosco. Com nosso planeta e com nossas pessoas.

Se você não consegue se imaginar não comprando as ofertas inacreditáveis, eu tenho algumas coisas para te perguntar e refletir:

  • Você realmente precisa comprar mais essa prenda de roupa?
  • Essa prenda de roupa vai melhorar mesmo tua vida? Teu dia? Teu estado de ânimo e humor?
  • Você vai conseguir andar com essa roupa, sabendo que ela foi feita em condições escravas? Vai dar para dormir de noite?IMG_20160128_183653

Nossa, Tai, que dramática!!!!!

E sim, é uma situação dramática gente. Só que nós não fazemos a mínima ideia disso. Não pensamos de onde vem nossas roupas, quem as fez, como as fizeram? Quem são essas mãos anônimas que tem me vestido nos últimos anos?

Certo, mas a dúvida que fica é: o que podemos fazer para ajudar nessa situação?

NÃO PRECISA PARAR DE COMPRAR ROUPAS, CALMA!

Hehe, o que precisamos é simples:

  • Não compre tantas roupas só por que estão num preço imperdível. Esse preço imperdível custa muito caro, pois custa vidas em condições inumanas.
  • Veja a etiqueta, descubra onde foram feitas tuas roupas, de onde elas vieram. Evite marcas que foram expostas por escândalos sobre mão de obra escrava, você pode conferir algumas delas AQUI .
  • Opte por peças produzidas no nosso país, isso melhora a economia das empresas brasileiras, marcas brasileiras e costureiras nacionais.
  • Não se importe em pagar mais, mas levar menos prendas, isso significa que o trabalhador que costurou essa roupa para você usar, deve ter salário e condições de trabalho mais dignas.
  • Se importe por quem produziu tuas roupas, essas pessoas importam. Essas pessoas existem. Se importe pelo impacto desse excedente de roupas no planeta.
  • Nunca se esqueça de que você faz a diferença SIM! Pois cada um de nós fazemos a diferença, e se somados, somos muitos.
  • Não escute azamiga que vão falar que isso é impossível, que sente muito, mas dá muito trabalho. Força! Estamos juntas nessa!

Vou deixar para vocês o link do documentário The True Cost, ele está disponível no Netflix. Você deve achar lugares para ver online também.

Sei que foi uma postagem muito diferente das que costumo fazer. Mas acreditem, era muito necessária. Mais posts diferentes estão por vir nesse ano de 2016, o ano do bem estar e da saúde para mim.

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Tatiane Rapini, diretora executiva da 27 Million Brasil

Queria dar um parabéns final pelo projeto da 27 Million Brasil e da Fashion Revolution, muito importante e empoderador. Obrigada pelo trabalho de vocês!

É duro saber que você pode fazer algo, pois significa que vai precisar mudar alguns hábitos, sair da zona de conforto, pensar duas vezes, ter algumas dores de cabeça, se deixar levar menos pelo consumismo… Mas, como todas as vidas importam, acho que o preço é justo.

E aí, caro leitor, me faz bem saber quem fez minhas roupas e em quais condições, e vocês, se importam? Gostariam de tentar mudar alguns hábitos? Bora trocar informações?

As melhores inspirações!

Tai.

 

 

 

 

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2 pensamentos sobre “Quem fez tuas roupas?

  1. Tai, adorei o post! Eu e meu namorado recentemente assistimos a esse documentário no Netflix e ficamos profundamente tocados, depois de tomar consciência de toda essa tristeza que é a vida desses seres humanos, eu olhei para o meu armário e me deu um aperto no coração, embora eu não tenha o costume de comprar roupas, da próxima vez, vou verificar quais empresas estão de acordo e possuem uma “ficha limpa”.

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    • É realmente muito duro entrar em contato com tudo isso e olhar pro guardarroupas, pois por muito tempo nós não demos a mínima para esses fatos, eles eram desconhecidos e nós consumíamos sem pensar em que condições aquelas roupas eram feitas. Eu tenho pensado muito sobre isso, e precisamos fazer algo sim, mudar nosso modus operandi, comprar menos, comprar roupas que tenham uma mão de obra mais digna, forçar essas empresas a tratarem melhor seus funcionários e melhorarem as condições de trabalho.
      Bora buscar lugares que tenham, como vc mesma disse, Ficha Limpa! Se encontrar lugares legais, me conte!! ❤
      Obrigada por comentar, Barbara, fico feliz que você tenha gostado do post! 😀

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